Aqui, apesar da incerteza quanto ao fundamento jurídico da ocupação e da precaridade das condições físicas do edifício, a Companhia começou a implantar o seu Projecto Global de Trabalho.

Desde logo montando uma pequena sala de espetáculos no salão de festas, com tetos ricamente decorados e um o palco que foi ampliado, onde as nossas criações passaram a ser apresentadas com regularidade, conseguindo-se deste modo fidelizar uma corrente de público próprio e constante. Aos poucos, foi sendo instalada uma oficina para a construção de cenários, adaptando outros espaços do edifício para a confeção de figurinos e adereços. O espaço reservado à Secretaria foi mesmo o primeiro local a funcionar em pleno, tendo ainda sido criado um outro gabinete de trabalho.

Foi neste nosso primeiro centro de criação das Virtudes que, de 1979 a 1987, tiveram lugar 15 espectáculos em estreia absoluta, que o Pé de Vento levou aos quatro cantos de Portugal, e também além-fronteiras.

Nestes anos foi consolidada a parceria com o escritor Manuel António Pina, autor de 11 dos textos inéditos que deram origem às criações apresentadas em estreia absoluta; e foi iniciada uma nova parceria criativa com o escritor Álvaro Magalhães.

Foi nestas instalações que tiveram lugar os Encontros de teatro para a Infância e Juventude, em colaboração com o CPTIJ (Centro Português de Teatro para a Infância e a Juventude), e que trouxeram ao Porto grupos de teatro nacionais e estrangeiros, permitindo que se tivesse uma visão concreta da diversidade das opções estéticas, aprofundadas em debates, a par da organização de vários workshops e de cursos de Introdução à Linguagem Teatral e de Formação de Cenógrafos.

A parceria com a Comissão de Moradores da Vitória e a comunidade local – lembremos que estávamos em plena zona histórica do Porto, nessa altura bastante abandonada –, levou o Grupo a desenvolver, no âmbito do seu Projecto Global, um plano de inclusão sociocultural, organizando ações para a população residente nesse território, nomeadamente para grupos etários de crianças, jovens ou seniores, bem como apoiando centenas de atividades protagonizadas quer pela Comissão de Moradores, quer por outras instituições sociais locais.

Em 1987 o Ministério da Segurança Social, a quem o edifício pertencia, sendo Ministra a Dr.ª Leonor Beleza, solicitou a nossa saída, uma vez que o edifício seria cedido ao S.A.O.M. (Serviço de Assistência da Ordem de Malta).

E foi assim que o Pé de Vento se viu constrangido a desfazer e a desmontar o seu primeiro espaço de criação e de cumplicidades várias, mudando para as instalações de uma antiga fábrica, na Rua do Heroísmo, mediante o pagamento de um aluguer.

Nota 1:

Apesar de as instalações da Rua das Virtudes terem permitido ao Grupo desenvolver e projetar o trabalho de modo a transformar-se em Companhia profissional, conquistando o seu espaço próprio no panorama cultural da cidade, não era possível ignorar que o enquadramento legal das comissões de moradores e dos serviços sociais prestados por essas instituições (infantário e ATL) evoluía em sintonia com a transformação sociocultural do país.

A partir de 1984, e sobretudo depois das eleições autárquicas de 1985, o Pé de Vento decidiu apresentar à Câmara Municipal do Porto um conjunto de propostas e de sugestões de espaços susceptíveis de poderem vir a ser adaptados a sala de espectáculos.

A verdade é que algumas das salas mais antigas, pertences a entidades culturais da cidade, que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, tinham sido importantes para a atividade teatral, com o tempo tinham deixado de reunir as condições para voltarem a ser utilizadas.

Esta situação, com avanços e recuos, vai arrastar-se até 1992, ou seja, até à entrada em funções, como Secretário de Estado da Cultura, de Pedro Santana Lopes.

Entretanto…