ITINERÂNCIA

A itinerância sempre foi considerada pelo Pé de Vento como um vertente de trabalho estruturante na concretização da sua actividade. 

O facto de o Pé de Vento desenvolver o seu trabalho teatral em contínuo, e ao conservar em repertório várias das suas criações, fez com que ao longo dos 40 anos da sua actividade profissional, sempre tenha apresentado anualmente uma programação disponível para deslocações a qualquer ponto do País. 

Para a temporada 2019/2020 (de Outubro a Julho) são dois os espectáculos que estão disponíveis, mediante marcação prévia, requerendo ambos um espaço de apresentação com as seguintes características:

 

– Recinto fechado

– Dimensões mínimas do espaço cénico – 5 m de largura X 5 m de fundo X 3 m altura.

 

 

 

O pássaro da cabeça

de Manuel António Pina

Um poema é uma coisa sem importância. (Raymond Queneau)

 

Como se fosse possível voltar atrás no tempo…mas como no teatro talvez isso possa acontecer…levamos à cena alguns dos primeiros textos que Manuel António Pina escreveu para o Pé de Vento logo no inicio da nossa parceria, e que, em 1983, deram um belo livro. O Pássaro da cabeça está entre essas pequenas maravilhas que tinham ficado por fazer. Chegou a hora de resgatarmos esse conjunto de palavras, de lhes dar voz e espaço para existirem.

 

Havia uma flor!

Nem eu sabia

onde é que a flor havia

mas tanto fazia.

 

Nem a flor sabia

Que existia.

Em qualquer sítio, sem saber, floria…

 

 

 

Um Problema (muito) Enorme

de Álvaro Magalhães

O que aconteceria se um dia o sol não nascesse e o tempo parasse? Assim começa mais um conto da Mata dos Medos. Um ouriço que gosta de ouriçar de barriga para o ar, um coelho assustadiço, um caracol viajante, um chapim avarento e uma toupeira que tudo sabe, depois de terem lidado com o Amor, esse grande mistério, vão agora tentar resolver um problema (muito) enorme, que afecta não só os animais que vivem na mata, mas todos os seres vivos do planeta: a Morte. 

Álvaro Magalhães

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Ao levarmos à cena Um Problema (muito) Enorme, de Álvaro Magalhães, completa-se o díptico em torno de A Mata dos Medos que o Pé de Vento se propôs realizar. O primeiro espetáculo, intitulado O Lugar Desconhecido e concebido a partir do conto com o mesmo título, foi estreado em 2015. 

Com esta coletânea de contos, Álvaro Magalhães inscreve-se numa longa tradição literária que dá voz e protagonismo aos animais. fábula é uma narrativa curta, em prosa ou em verso, caraterizada por ter como personagens animais que agem como pessoas e que, além de possuírem a faculdade da fala, ilustram as virtudes e os defeitos humanos. A proximidade que se cria com o mundo dos homens confere à história uma finalidade educativa, mais ou menos explícita. 

Este conto relata, tal como os outros, as aventuras de uma comunidade de pequenos animais – o ouriço, o coelho, a toupeira, o caracol, o chapim e a coruja –, de entre outros habitantes dessa misteriosa “mata dos medos”. 

Num cenário de solidariedade universal, as personagens desta história apresentam-se como seres ingénuos, ainda não “corrompidos” pelos códigos normativos de uma sociedade violenta, repressiva e desigual. 

Se o lugar desconhecido é o sítio onde se encontra o Amor (“seja lá isso o que for”), em um problema muito enorme estamos perante a questão da morte (“o que é morrer?”), uma situação até agora desconhecida para aqueles pequenos seres comunitários. Uma interrogação que, de certo modo, vai continuar a escapar à sua compreensão, uma vez que a Coruja, símbolo de uma inquietante ameaça, volta a aparecer.

Confrontados com o desconhecido – com algo que não conseguem apreender – e atravessados pelos medos que, necessariamente, lhe estão associados, aquela comunidade de pequenos animais aceita o desenrolar da vida tal como ela se lhes apresenta, acabando por encontrar na própria natureza a resposta que melhor se adapta às suas inquietações. O espaço-tempo torna-se, assim, a metáfora do desconhecido:

“Desta vez, vou ao Fim do Mundo disse o Caracol. É longe e tenho de ir andando.

O mundo não tem fim. Chega-se lá e continua – disse o Ouriço. Pelo menos foi o que ouvi dizer.

Melhor ainda

João Luiz