ERA UMA VEZ

O teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana.

Frederico Garcia Lorca

Por: João Luiz

Há precisamente 40 anos, o Pé de Vento tinha acabado de apresentar o seu primeiro espetáculo como Companhia Profissional de Teatro para a Infância e Juventude na 1ª Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira, com um texto de Manuel António Pina intitulado «O Maior Intelectual do Mundo».

Mas recuemos mais um pouco…

Quando, em 1977, no rescaldo do 25 de Abril e num tempo de intensa renovação, começou a ganhar forma, entre mim e a Maria João Reynaud, a ideia de criar um novo grupo de teatro que respondesse às exigências de uma sociedade em mutação, foi nos mais novos que pensámos: eles eram a imaginação em estado puro e, graças a isso, os nossos espectadores privilegiados, sem prejuízo de todos os outros.

No teatro que projetávamos, queríamos que o texto tivesse um papel fulcral, de modo a romper com a tradição de um teatro infantilizado, imaginativamente pobre e com propósitos moralizadores.

Como um sinal estrondoso de mudança, caiu-nos nas mãos aquele livro “estranho”, um objeto (ainda) não identificável, que se intitulava – O País das Pessoas de Pernas para o Ar. O seu autor, o poeta Manuel António Pina, abria horizontes novos à escrita, subvertendo os modelos vigentes, os géneros literários tradicionais e desafiando os limites da imaginação. Foi sob o efeito dessa magnífica surpresa que o desafiámos a participar no nosso Projeto.

E o Manuel António Pina aceitou o nosso repto, prontificando-se a integrar o núcleo impulsionador do Coletivo de Animação Teatral Pé de Vento, constituído por um escritor, uma dramaturgista, Maria João Reynaud, e um encenador, eu próprio.

No ano já tão distante de 1978, a 22 de julho, o Jardim da Cooperativa Árvore foi o cenário onde se estreou o primeiro espetáculo do Pé de Vento. Seguiu-se o convite para participarmos na 1ª Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira, que nos foi endereçado por Jaime Isidoro. Nos meses seguintes, percorremos a cidade de lés a lés, com o boneco-barraca de fantoches chamado Ventolão, que se apresentava como o maior intelectual do mundo, levando as suas histórias divertidas e desconcertantes a bairros sociais, jardins-escolas, associações recreativas de moradores, etc. Ao primeiro texto, vieram juntar-se mais dois: “Trabalhadas e Trapalhadas” e “Homenagem aos Pés”, que encerrou a Trilogia do Ventolão.

De então para cá, foram muitos os textos encomendados a Manuel António Pina que levámos à cena, já sem a presença do Ventolão. Sendo espetáculos prioritariamente dirigidos ao público infanto-juvenil, a verdade é que acabavam por atrair o público adulto, tanto pela sua novidade, como pela qualidade literária dos textos encenados.

Até que em 2018, para assinalar as quatro décadas da nossa parceria, voltamos a ir ao encontro dos textos oferecidos ao Pé de vento nesses primeiros anos, e que ainda não tinham sido levados à cena. “O Pássaro da Cabeça” é o espectáculo que abriu e vai encerrar a programação do ano dedicado a Manuel António Pina.

Ao longo das quatro décadas de existência do Pé de Vento, em que a nossa inesgotável resiliência permitiu fazer face a dificuldades e incertezas, fomos ultrapassando os obstáculos através da perseverança de quem fez do teatro não só uma causa, mas uma segunda vida. A Companhia Pé de Vento foi, e continua a ser, uma invenção singular, em que os espetáculos são edificados em estreita ligação com os autores e em que a escrita literária emparceira com a escrita cénica, de modo a que a invenção verbal tenha correspondência no tratamento cénico das linguagens, permitindo que a função comunicativa da palavra permaneça realmente viva.

Mas esta prática teatral também teve os seus detratores. Desde aqueles que nos consideraram os teimosos fazedores «de espetáculos intelectuais para crianças», até à recomendação «oficial» de variar mais os repertórios e de escolher «autores de outras proveniências»… Como não constava dos nossos planos mudar a “proveniência” dos autores, o apoio estatal à Companhia foi suspenso entre 1989 e 1993. Mas, com o inestimável apoio autárquico, conseguimos assegurar as condições essenciais à prossecução do nosso trabalho, dentro da linha estética que defendemos desde o início, e que se foi depurando espetáculo a espetáculo, permitindo que a identidade do Grupo se afirmasse e fortalecesse.

Nesse ano de 1989, Pé de Vento estreou em Bruxelas/Bélgica, em coprodução com o Théâtre-Poème, O Privilégio dos Caminhos/Le Privilège des Chemins de Fernando Pessoa, numa adaptação cénica bilingue de Teresa Rita Lopes. Seguiu-se, em 1993, O Físico Prodigioso de Jorge de Sena, numa versão cénica bilingue de Maria João Reynaud, igualmente estreada em Bruxelas, em coprodução com o Théâtre-Poème.

Os espetáculos que fizemos impuseram-se ao público: não só pela natureza insólita das histórias que encenávamos, como pela dimensão lúdica e poética que a palavra neles adquiria. Dezenas, talvez mesmo centenas, de milhares de espectadores assistiram a essas representações, levadas aos sítios mais recônditos do País por uma Companhia que, na época, apostava num trabalho dirigido aos mais novos valorizando a vertente da itinerância.

Depois de, durante largos anos, o Pé de Vento ter apresentado as suas criações em espaços precários da cidade do Porto ou do seu Distrito, foi finalmente possível concretizar o almejado objetivo de edificar o Teatro da Vilarinha, abrindo ao público infanto-juvenil uma sala de espetáculos, em Outubro de 1996, graças à visão cultural do Presidente da, então, Junta de Freguesia de Aldoar, Acácio Gomes, e ao financiamento das instituições políticas locais e nacionais.

Quando retomámos a atividade regular nesta sala, convidámos de imediato o Manuel António Pina para escrever um texto. A proposta, logo aceite com entusiamo, deu origem a um novo período de colaboração, com a sua inclusão temporária na companhia como escritor residente, de que resultou o Díptico Dramático em Torno do Mar. E ainda, em 2003, O Poço, realizado com o apoio da empresa “Águas do Douro e Paiva S.A.”, que permaneceu em cena no Teatro da Vilarinha mais de dois meses, além de ter efetuado itinerância pelos 20 concelhos que integram aquela empresa.

Seguiram-se outras residências, com autores como Álvaro Magalhães e Teresa Rita Lopes. E outras tantas peças de Manuel António Pina, até ao momento em que, para assinalar os 30 anos da nossa parceria com o escritor, encetámos uma nova fase de criação teatral – centrada na figura do narrador – com a estreia de História do Sábio fechado na sua biblioteca, em 2008.

E foi assim que, quando em 2011 chegou o Prémio Camões, todos acolheram a notícia com regozijo no Pé de Vento. Vermos o Manuel António Pina galardoado com um prémio de tão elevado prestígio foi um dos momentos mais felizes do nosso trajeto.

E foi com um orgulho nascido de uma tão longa e produtiva cumplicidade que o ouvimos dizer, na Sessão em sua Homenagem realizada na Feira do Livro, que se algum dia tinha escrito teatro era porque «o João Luiz lho tinha pedido», com tal insistência que se tinha sentido «obrigado» a fazê-lo».

Infelizmente, o espetáculo realizado para assinalarmos a atribuição do Prémio Camões ao nosso escritor – Os macacos não se medem aos palmos, estreado no Mosteiro S. Bento da Vitória em coprodução com o TNSJ – que ainda a sua colaboração inicial, já não contou com a sua presença na tão esperada estreia.

Se Manuel António Pina não tivesse escrito todos os excecionais textos que afortunadamente levámos à cena no Teatro Pé de Vento, a dramaturgia portuguesa seria hoje muito mais pobre. Ainda bem que os escreveu – mais por ela, e pelo seu futuro, do que por nós.